Àos sentimentos infantis um recomeço


Mais um dia comum. Ela voltava para casa, através da janela do ônibus avistava a fina chuva que deixava úmida sua cabeleira. Absorta em pensamentos, foi surpreendida por seu próprio olhar que focalizou-se em uma moça, sentada a sua esquerda, a três bancos de distância. A moça aparentava por volta de vinte anos de idade, trajava um blusão de lã vermelho que estava em consonância com sua face avermelhada pela dor e umedecida por lágrimas que lhe escorriam sobre as maçãs do rosto, rugas de angustia se estendiam por sua testa, com as pontas dos dedos ela tentava em vão acabar com as lágrimas que continuavam a rolar. Por algum motivo ela sentiu que a dor daquela moça era também sua, seus olhos arderam e lágrimas ameaçaram nascer deles. Pelo mesmo motivo, ela sentiu que deveria ajudá-la, mesmo sem conhecê-la sentia que era necessário perguntar-lhe o que estava acontecendo, sentiu vontade de abraçá-la e dar-lhe conselhos. Mas, ora, que intromissão a sua! Por alguma convenção social, sempre disseram a ela: "nunca converse com estranhos". Lembrou-se frustradamente que não podia abraçar o mundo como muitas vezes sentira vontade, acabar com todas as dores e distribuir todo o amor que está guardado, sentimento este, inclusive, que sempre lhe aconselharam oferecer apenas quando sentia segurança, para não machucar-se. Um tanto quanto utilitaristas esses conselhos. Quando crianças, dotados de espontaneidade, começamos a ser "educados" para controlar os próprios desejos, "pense muito antes de agir" são palavras proferidas por pais e educadores preocupados, não estão eles isentos de credibilidade, mas, a ironia encontra-se no fato de que depois de estarmos "crescidos" esses conselhos precisam ser reformulados. É necessário reaprender o amor e a espontaneidade infantil, repartir, brigar e pedir desculpas simultaneamente, esquecer de si para ser o outro, isto ou aquilo, livrar-se de todos os julgamentos. Perpassada por todos esses pensamentos que povoavam seu inconsciente, ela permaneceu imóvel. Algum motivo mantinha-a colada ao banco, enquanto a moça de blusão vermelho ainda soluçava ao falar com alguém pelo telefone, ela realmente precisava ouvir outra pessoa.

Comentários

  1. Deixamos a idade da submissão e
    partimos para um momento de nossa vida
    onde pensamos que talvez agente tenha de
    reeditar o rumo do universo...
    Ou apenas o rumo das relações socias (tão pomposas...)
    ser genuinamente humano as vezes é difícil

    Adorei.
    Abço
    =}

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